Caronas que Inspiram – Guilherme Lito

Guilherme Lito é engenheiro de produção pela PUC- Rio, onde apresentou o TEDxPUC, palestrante, empreendedor e inovador. Participou da fundação da plataforma Luz.vc, empreendeu a Cocriare, é co-fundador da Global Shapers Rio de Janeiro e sócio do Brownie do Luiz, empresa que tem como missão alimentar a felicidade dos colaboradores, clientes e parceiros.

Conte um pouco sobre a sua história e como começou o empreendedorismo.
Sou carioca, moro no Rio de Janeiro. Fora alguns poucos períodos de no máximo 6 meses sempre morei por aqui. Estudei na escola britânica e me formei em engenharia de produção na PUC no meio do ano passado. Comecei trabalhando na Empresa Junior da PUC-Rio em 2009 onde fui Presidente em 2010, então fui ser sócio da LUZ com mais 3 pessoas da EJ (não fundei a LUZ, eles já estavam lá quando entrei).

Nós quatro e mais algumas pessoas tocamos a empresa, ganhamos dinheiro e investimos na abertura da Casa LUZ, primeiro espaço de coworking da zona sul do Rio. Esse serviu de sede para a LUZ, que na época era uma empresa de consultoria para novos e pequenos negócios. Utilizamos também a casa LUZ para dar cursos e palestras e fazer encontros para falar de um novo mundo (open source, economia da colaboração, etc). Ainda na LUZ lançamos o que hoje é a LUZ.vc, maior plataforma do Brasil de ferramentas (planilhas, manuais, video-aulas, etc) para empreendedores.

Tudo isso foi feito com o intuito de atingirmos o Brasil todo, tornar nosso conhecimento acessível (consultoria é cara, planilha é barata), e proporcionar uma melhor qualidade de vida, já que não vendíamos hora. Poderíamos estar na praia ou em um projeto social trabalhando de graça, fazendo o que queríamos enquanto a plataforma online tornava nosso conhecimento acessível para um cara no Acre e ainda nos sustentava financeiramente.

Foi nesse período que, junto com amigos fundei a Cocriare, que educa crianças para a sustentabilidade. Para completar esse cenário, o Luiz do, Brownie do Luiz foi dar uma palestra na LUZ, nos conhecemos, batemos muitos bons papos, vimos que estávamos muito alinhados em propósito de vida e de empresa e ele me chamou para ser sócio alguns meses depois de fazer o site do BDL. Isso em janeiro de 2013.

Enquanto todo esse movimento acontecia, eu ainda era aluno de universidade. Assim que me formei vi que estava fazendo um monte de coisas mas sem ter tempo de me trabalhar verdadeiramente, que é minha prioridade. Com isso encerrei o projeto no qual estava na Cocriare, sai da LUZ de maneira muito amistosa e decidi focar 100% no Brownie. Tá, 100% é demais porque empreendedor você sabe como é, né? Então ainda tem um curso aqui e uma consultoria lá rolando e co-fundei o Global Shapers Rio de Janeiro com pessoas de altíssimo calibre como Tomás de Lara da Engage, GOMA e outros, Alessandra Orofino, do Meu Rio, e Manuel Thedim, do IETS. :)

Hoje nosso propósito no Brownie do Luiz é alimentar felicidade. Por isso em toda decisão levamos em consideração a felicidade da nossa equipe, fornecedores, clientes, meio ambiente e comunidade. Em termos tangíveis, queremos ser a primeira fábrica do Brasil lixo zero (esse projeto será open source na plataforma Circular Society e estamos fazendo em parceria com a Matéria Brasil), e estamos implementando um sistema de gestão holocrático, que não tem hierarquia e possibilita muita autonomia, além de determinar diferenças máximas de salário de quem ganha mais e quem ganha menos e outras coisas desse tipo. Uma boa referência para o modelo de gestão que estamos implementando é o B Corporation!

Mais recentemente fomos convidados a replicar a nossa cultura em uma fábrica de água em Angra. Agora divido meu tempo em Angra, fazendo essa transição em uma envasadora que estamos operando e também na manutenção e crescimento do Brownie na direção desse novo olhar que podemos dar ao trabalho industrial num mundo pós-industrial.

De que forma acredita que o seu trabalho contribui para a vida das pessoas?
De duas maneiras. No âmbito local, estamos 100% determinados a transformar a vida dos nossos funcionários e sócios seja de maneira material (pagando melhor que o “mercado”, subsidiando bens materiais, proporcionando benefícios que gerem tranquilidade financeira e mental) e espiritual/emocional. Na medida em que realizamos sonhos juntos, confiamos, nos cuidamos, damos autonomia, trazemos o amor para a empresa, o debate sobre felicidade individual e coletiva e por aí vai, abrimos um horizonte de possibilidades nas nossas vidas e na dos outros.

Eu costumo dizer que isso tudo nada mais é do que uma desculpa para eu mesmo evoluir, ou seja, ajudar os outros não é meu objetivo, mas vejo que para a minha evolução não há outro caminho que não seja através de relações harmoniosas e onde quem está a minha volta também esteja se trabalhando e evoluindo. Não vejo diferença entre eu e o motoboy. Temos sonhos, necessidades, histórias, medos e por aí vai. Quando eu compartilho isso com ele e ele comigo, evoluimos muito juntos e de quebra ainda podemos tocar um samba juntos enquanto o brownie está no forno!

 

No âmbito mais global acredito que nosso trabalho contribui para um novo olhar para os negócios. Isso pode não ser claro hoje para todos porque nunca foi nossa prioridade comunicar, mas em breve pessoas interessadas num novo paradigma de produção e distribuição de bens poderão aprender e gerar aprendizado conosco sobre algumas perguntinhas que nós fazemos todo dia: existe justiça no ambiente de trabalho? Como distribuir as riquezas geradas numa troca comercial? Como integrar geração de renda com evolução pessoal? Como integrar sonhos pessoais com os da empresa mantendo a prosperidade das pessoas e da empresa? Como produzir e distribuir 10, 20, 50 toneladas de produtos por mês sem ser de maneira agressiva, top-down e fria? Como fazer com que seu fornecedor e funcionário/sócio fique feliz com o que ganha sem danificar o meio ambiente, extrair valor das comunidades e sem encarecer o produto para o cliente? Como cumprir com leis defasadas, como nossas leis trabalhistas, e ainda assim dar liberdade para o funcionário trabalhar da maneira que é mais adequada para ele? São muitas as perguntas, essas são só algumas. Estamos diariamente lendo, trocando e aplicando processos, papos, métodos, ferramentas e especialmente muita atenção e amor a tudo isso. Com isso poderemos construir um modelo diferente de trabalho.

Hoje as respostas nos livros e na academia estão muito óbvias, mas se você me perguntar, acho que estamos replicando sistemas muito danosos e bélicos. Essa ideia de meritocracia acima de tudo e de felicidade no trabalho ser a possibilidade de levar seu cachorro ou ir de bermuda, são maquiagem num sistema com uma arquitetura bastante perversa e violenta. Levar seu cachorro, usar bermuda e dar mais oportunidades para quem quer e demonstrar isso na prática é legal, mas estamos tentando contribuir para o mundo dos negócios ao trazer uma nova proposta de fazer tudo isso estruturalmente e não apenas nessa superficialidade. Não para os outros copiarem, porque nada deve ser copiado, mas sim para mostrar que existem outras possibilidades. Quem sabe assim inspiramos com algumas idéias?

Como equilibra o seu tempo entre trabalho e lazer?
Sem equilibrar! Se estamos falando em equilíbrio, estamos falando de uma balança onde um puxa para um lado e o outro puxa para o outro. Ora, mas por que isso? Na nossa fábrica temos um bloco de samba, gostamos da companhia um do outro.

“O danoso é o mindset de que trabalho não é lazer. Se um ocupa um espaço e o outro ocupa o outro, aí ferrou. Mas por que não jogar futevolei e fazer reunião na areia da praia logo depois?”

Por que não produzir e embalar brownie dançando samba? Por que não trocar idéia com o cliente, aprender sobre a vida dele e compartilhar um pouco da sua? Onde começa trabalho e onde começa lazer? A solução para mim não está em equilibrar, mas integrar! Trabalhe com amigos, torne-se amigo das pessoas com quem trabalha, ame o que você faz, faça o que você ama. É tudo muito simples, não? Nós é que nos condenamos a tornar isso impossível quando pensamos que o é.

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De todas as escolhas que fez, alguma delas mudou o rumo da sua vida? 
Estritamente falando, todas as minhas escolhas mudaram o rumo da minha vida. Se eu penso que  foram ou serão algumas poucas que mudaram ou mudarão, eu perderei minha presença, pensando em qual decisão é realmente importante, quando todas são. Aliás, só existe uma decisão na vida, a de agora. A de ler esse texto ou clicar em outro link no Facebook. A vida se resume a isso, qualquer coisa além é nossa necessidade de querer parecer maior do que somos e/ou resignação à nossa poderosa mente que quer sempre complicar as coisas.

Dito isso, e respondendo sua pergunta de maneira mais prática, um ponto de inflexão para mim foi o reveillon 2012-2013. Minha companheira na época teve a ideia de irmos para Piracanga, uma comunidade na Bahia. Naqueles tempos, para mim quem falava em Deus era inocente ou tinha sofrido lavagem cerebral, quem falava em amor era mole demais e fraco. Não me entenda mal, eu não era um demônio, mas trabalhava quase que puramente com meu lado esquerdo do cérebro, vivendo essa forma de pensar racional e dualista que domina o mundo hoje. Lá aprendi minha primeira meditação, conheci uma forma diferente de vida na prática e comecei conscientemente meu trabalho interno. Digo conscientemente porque, quer você queira ou não, você está sempre tendo oportunidade para se trabalhar.

Desde então tenho vivido de maneira mais plena, muito mais feliz e em paz, pois, em poucas palavras, descobri que vivemos no paraíso, é só uma questão de querer enxergar o milagre que é a vida em cada momento presente. Mas a caminhada é longa. Caminho sem pressa e sem pausa, celebrando tudo e curtindo esse momento de transição maravilhoso que eu e o mundo vivemos.

Se voce tivesse cinco minutos de atenção do mundo todo para um recado que acha fundamental para a humanidade, qual seria?
Ficaria em silêncio. O mundo todo poderia se beneficiar muito de cinco minutos de silêncio coletivo.

O que gostaria que estivesse escrito em sua lápide, quando você encerrar a sua vida neste plano que vivemos? Qual seria a moral da sua história.
Espero não ter lápide! Sempre lembro que Maomé não era muçulmano, Cristo não era cristão, Buda não era budista e Krishna não era hindu. Todos eram mestres que ensinavam o amor e boa parte das palavras desses caras foram totalmente deturpadas. Se eu não estiver por aqui, prefiro não dizer nada fora do contexto, afinal um texto fora do contexto é um pretexto.

Não tenho muitas expectativas para o que deixarei quando sair desse plano, seja moral da minha história, seja fisicamente mesmo. Poucas vezes penso nisso hoje em dia. Já tive vontade de deixar legado, de construir impérios, de ser adorado, de falar milhões de coisas úteis para muitos mas isso tudo vinha de um lugar de muita insegurança e necessidade de ser aprovado por alguém externamente. Hoje, tudo o que posso querer é o bem e o amor ao próximo, mas antes de eu deixar isso como moral para os outros e pregar, seja no dia a dia, seja na minha lápide, é importante que eu mesmo viva isso. Sigo, portanto, com a mesma resposta da pergunta anterior. Talvez o que deixe na minha lápide é nada. Isso pode servir para muitos.

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Compartilhe um livro e um filme que inspira ou inspirou a sua vida.
Um livro muito profundo que há séculos tentamos entender é o Tao te Ching. Ele trás muitas lições, mas temos que estar abertos para recebe-las. Outro livro que pode interessar a galera que está numa pegada mais empreendedora e menos filosófica é o Capitalismo Consciente que conta um pouco da história e ideias por trás do WholeFoods.

Tenho compartilhado alguns textos meus e de amigos no evolucionarios.com.br, isso pode interessa-los também!

Um filme inspirador é o Samsara! Se não me engano há dois com esse mesmo nome, o que estou dizendo é um filme mudo com imagens do mundo todo. Outro que pode lhes servir e bem mais curto é a palestra do TEDxPUC que apresentei. Naquele momento estava no meio de um furacão, vocês poderão perceber a necessidade que tinha na época de simplificar minha vida pela ansiedade da minha voz. No blog mencionado ali em cima tem um texto que escrevi depois de apresentar aquela palestra e no link do youtube tem uns comentários que fiz também. Pode dar uma noção melhor do contexto.

Assista aqui o TEDxPUC de Guilherme Lito.

Pegue outras Caronas que Inspiram: Rafaela CappaiEstúdio Criativo, Carolina Bergier

 

Author Rodrigo Borges

Ócio Criador do Folga na Direção. Criativo por natureza, músico por vocação, ator por educação e empreendedor por diversas razões. Formado em Marketing e Agronegócio.

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  • Fabiana Alexandrino disse:

    Bacana em Ro! Esse novo olhar…. A quanto tempo estamos falando sobre isso? As peças da sua vida só vão se encaixando ! Coisa muito boa’ Deus por traz de tudo!

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