A experiência que transformou minha vida – Monasterio em Mynmar

By 19 de setembro de 2014 Na Estrada! 3 Comments

– Por Rodrigo Borges –

O que você imagina quando o assunto é um Monasterio Budista na Ásia?
Um lugar com silêncio divino, onde monges são sábios e saem todas as manhãs para a sua bela caminhada em busca da comida sagrada e uma comunidade repleta de pessoas saudáveis que vivem felizes e harmoniosas…Não!

Após três dias vivendo em um monasterio com 250 monges localizado em uma comunidade formada por 2500 pessoas, muitos conceitos são quebrados, novos sentimentos são gerados e a maioria ainda não compreendidos.
Chegamos até este lugar situado a 50km de Yangon, antiga capital de Myanmar, por indicação do grande guia e mais novo amigo Sura Tura (saiba como o conhecemos aqui). Quando perguntamos sobre um monasterio, ele muito animado, disse: tenho um lugar fantástico onde você pode praticar e aprender meditação e ainda vivenciar o dia a dia de alguns monges muito especiais. O que acham?
Perfeito! Quando?
– Amanhã as 9 da manhã passo no hotel!

Yangon Folga na Direção

No horário combinado encontramos o querido Tura e, com mochilão nas costas, seguimos a pé com ele até embarcar em um ônibus público no estilo Myanmense: 20 centavos, 50 anos de muita história e com balanço de tirar o pé do chão de qualquer passageiro. A viagem durou uma hora e entre um grito e uma cuspida do cobrador em pé na porta com metade do corpo pra fora, embarcava gente de todo tipo, trabalhadores rurais, mulheres com bacias na cabeça, monges, famílias e muitos estudantes. A cada quilômetro a viagem ia ficava mais interessante.

Na chegada fomos recebidos por uma senhora com olhar tranquilo e após uma ligação, ela confirmou: temos uma casa para vocês!
Com a chave nas mãos seguimos pela estrada de terra e chegamos até o local. Abrimos a porta e vimos uma sala organizada com fotos de monges na parede, cozinha e banheiro, tudo bem simples e organizado mas estava faltando algo, a cama! Ficamos tímidos mas perguntamos:
– Onde dormimos?
Aqui mesmo, apontando para uma espécie de tablado. Na comunidade ninguém tem colchão, todos vivem como os monges, sem apego ao conforto.

Estranho! Mas otimista pensei: um perrengue sempre gera uma bela história, cenário perfeito para “mochileiros que somos”. Demos risadas meio desconcertados e seguimos para despedir do guia, naquele momento não imaginávamos o perrengue verdadeiro que iríamos presenciar, estávamos em uma mansão e não sabíamos!

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Chegamos próximo ao almoço, então deixamos as coisas e seguimos para o refeitório. Fim da tarde fomos conhecer a comunidade, e aí companheiro, aquela imagem do monasterio de conto de fadas deu lugar a uma filme difícil de assistir. Barracões de alvenaria hospedava cerca de 300 vovós e vovôs, cada um no seu metro quadrado, com leque na mão, almofada que servia de travesseiro para dormir e também de assento para as 7 horas de práticas budistas diárias: 3 de meditação + 4 escutando as palavras de Budha. Vimos alguns prédios de três andares que serviam de moradia dos monges e das monjas, casas térreas lotadas e alguns locais em construção. O cenário era estranho mas em todo canto éramos saudados com um sorriso de “bem vindos ao melhor lugar do mundo”!
A convite de uma monja, pegamos carona e seguimos na carroceria para conhecer o resto da comunidade que ficava a 1 quilometro. Ali a pobreza fez questão de embrulhar o estômago, casinhas feitas de palha e bambu construídas como palafitas sob a água suja de esgoto e lixo, habitadas por famílias com 4 ou 5 crianças. Chegamos ao nosso destino, outro galpão que servia como monastério/escola, recebidos pelo líder dos monges e o professor de inglês da comunidade, fomos convidados para conhecer seus alunos que pela primeira vez iria conversar com Western People! Marcamos para o dia seguinte as 14 horas!

Despertamos as 4:30, horário em que toda a comunidade acorda para meditar.
A noite foi difícil, sem colchão, calor insuportável e muitos mosquitos. O descanso foi de rápidas dormidas entre uma mudança de posição e uma pausa para molhar o corpo. Saímos sem sucesso para procurar o grande local de meditação, mas lá cada um medita por conta própria, a meditação não era pra “inglês ver”. Ficamos sem entender nada e iniciamos a nossa própria prática.

6:15, café da manhã: arroz e uma mistura que não conseguimos comer. Como tínhamos levado comida, voltamos para casa pois logo menos a coleta de alimentos com os monges iria começar, no primeiro dia a Ro preferiu ficar e eu fui sozinho.
A chuva tinha parado e a convite do monge líder, o único que falava um pouco inglês, sentei na cabine do caminhão que nos levaria até o bairro onde seria a coleta, a viagem demorou 40 minutos e ali conversamos e demos risadas, ele me contou que tinha se tornado monge à 6 anos atrás, que tinha 54 anos e tinha esperado seus filhos crescerem, para deixar família e se dedicar ao trabalho com a comunidade. Me pediu desculpas porque seu inglês era muito pobre mais se esforçou muito para explicar as 2 coisas mais marcantes para mim:
“Tudo nessa vida é impermanente!” e também a palavra Kanaliba, que significa viva o presente, viva o presente. Me ensinou que durante a coleta a cada respiração e a cada inspiração ele repetia mentalmente esta palavra.
Ao chegar ao local o monge me ofereceu água e pediu para ficar descanso, prática obrigatória para quem recolhe e para quem doa o alimentos, e me presenteou com uma bacia prateada toda ornamentada, que ate então não sabia para quê.
Chegada a hora, a fila com 10 monges se formou. No lado esquerdo o líder da comunidade e na direita eu, responsável por recolher o dinheiro, que honra fazer parte do batalhão de frente!

100 metros a frente um jovem com megafone ia anunciando a presença dos monges e a coleta começou. Passo a passo das casinhas paupérrimas saia gente de todas as idades que seguiam um mesmo ritual, tiravam o chinelo, e com um olhar de respeito, doavam o que tinham e finalizavam ajoelhando para agradecer aos pés dos monges. Frutas, legumes cozidos e carnes faziam a mistura e após tocado era separado em recipientes carregados pela comunidade e o arroz tinha um lugar especial, um recipiente que cada monge carrega consigo, após cheio ele me entregava a tampa e esvaziava em uma panela maior. Tudo que era doado era tocado pelo monge líder, como sinal de benção.
Andamos duas horas descalços, sob sol forte e a cada rua a demonstração de amor e gratidão tomava conta, eu segurei o choro algumas vezes, a cada senhorinha ou a cada criança que ajoelhava a emoção corria solta, mas eu como o homem que carregava o dinheiro segui firme e forte, em meio ao silêncio, o monge sussurra que era a primeira vez que um estrangeiro acompanhava e que a população estava curiosa e ao mesmo tempo surpresa. A postura séria dos monges me fez seguir com os olhos baixos, mas depois deste comentário, comecei a trocar olhares com a população que retribuía com um sorriso, a cada metro percorrido o suor corria solto, e para a minha alegria uma bandeja d’água apareceu como um oásis. Paramos e saudamos aquela água sagrada. Exaustos e com os pés doendo chegamos ao final com o estoque de comida lotado e a minha bacia cheia de dinheiro! Foram duas horas com um sentimento difícil de descrever, a cada passo a demonstração de respeito, humildade, fé, adoração e amor ao próximo me transformou! Entender e vivenciar aquele ritual que acontece diariamente a milhares de anos foi um presente lindo, trocar olhares e palavras com pessoas iluminadas me deixou totalmente em êxtase e sentir uma outra realidade e ver a generosidade de um povo foi incrivelmente encantador! Que benção, que honra, que oportunidade de viver este momento, espero um dia retornar e partilhar da sabedoria desses monges. Como a emoção rolou solta e o texto ficou longo, deixo para contar sobre o nossa vivência com as crianças da comunidade no próximo Na Estrada!

Gratidão a Myanmar, um pais onde a pobreza financeira e a nobreza de espírito se completam.

Leias outras aventuras nossas pelo mundo AQUI!

 

 

 

Author Rodrigo Borges

Ócio Criador do Folga na Direção. Criativo por natureza, músico por vocação, ator por educação e empreendedor por diversas razões. Formado em Marketing e Agronegócio.

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  • Silvia disse:

    Experiência rara e linda que você viveu. Somente boas pessoas atraem boas experiências!
    Parabéns!

  • jackelinemota disse:

    OI Rodrigo, estou descobrindo seu blog hoje. Me identifiquei pra comentar neste post porque o Myanmar também marcou minha vida.
    Estive lá em 2014. Estava de viagem ja agendada pra Tailandia quando uma foto de Bagan simplesmente me arrebatou. Decidi que iria passar meu aniversário lá de qualquer jeito. E assim fizemos: perrengue com vistos, duvidas ate na hora do embarque se ainda iríamos conseguir entrar, gastamos mais que qualquer trecho da viagem só pra passar meu aniversario lá. Entramos e saímos pra apenas 4 dias, mas cumpri meu objetivo. E Bagan e aquele pais, aquele povo, roubaram meu coração. E principalmente, me transformaram. Uma viagem que ainda está aqui dentro de mim, sendo refletida a cada dia. Em retorno, fiz alguns posts estimulando o turismo por lá e, principalmente, a contratação direta do povo local, para que o dinheiro do turismo vá direto aquela população incrível. Tenho, inclusive, um motorista querido por lá S2 Alguns leitores já me enviaram fotos com ele. Ah, sou blogueira de viagens (viajesim.com) e não hesito: o lugar mais incrível em que já estive é Bagan.

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