Myanmar – O país que parou no tempo

By 1 de agosto de 2014 Na Estrada! 2 Comments

Táxi com exclusivo serviço de ar condicionado senhor?

Foi assim que começamos nossa viagem em Myanmar, sob uma temperatura de aproximadamente 40 º embarcamos em um taxi sem serviço “exclusivo”. O trajeto teve duração de 30 minutos, a cada quilômetro percorrido era equivalente a alguns anos de retorno ao passado, pouco a pouco adentrávamos em uma atmosfera retrô que nunca tinha vivenciado antes. O primeiro grande impacto foi quando, da janela, vi um ônibus dos anos 60 circulando com lotação máxima permitida – por aqui –  todos os assentos preenchidos, corredores lotados e mais algumas pessoas em pé penduradas na parte de fora, nossa! Logo saquei a câmera e comecei os registros.

Seguíamos por ruas com asfalto falho e calçadas tomadas por barracas preenchidas por mesas e cadeiras infantis cor de rosa: pera aí, você viu isso Rô?  Vi sim, respondeu ela dando uma gargalhada – estão todas ocupadas por homens vestidos com uma espécie de saia e camisa branca, proseando ou lendo jornal com uma xícara na mão e cuspindo uma gosma vermelha com maior naturalidade do mundo! Assustamos nesse primeiro momento, achei que era sangue, esse segundo choque cultural me prendeu a atenção ainda mais e segui com olhos atentos assistindo aquele filme retro estranho esperando a próxima cena.

Cada vez que o táxi adentrava o centro da cidade, a situação ficava mais clara, estávamos em um lugar que realmente parou no tempo!

Eu, um apaixonado por coisas retrôs, estranhei, mas logo me senti em um parque de diversões. Logo que desembarcamos no hotel joguei o mochilão e sai na rua para apreciar a cultura local…aos poucos fui percebendo que não era o conceito “retrô” que estava em cena, os lugares são velhos mesmo… rs.

Em meio ao calor intenso e uma poluição sonora tipo Rua 25 de Março, saímos poruma das avenidas principais. No percurso vi casa de telégrafo, casa de serviços de datilografia, sapateiro e costureira express (um guarda sol, uma máquina e um banquinho), lojas com a família toda sentada na porta esperando o cliente, nas calçadas barracas de café e chá, barracas de livros, de frutas e barracas para almoço. Nas esquinas rolava uma disputada do “ponto comercial” entre as cabines telefônicas, barracas compostas por 3 ou 4 telefones com fio, onde o cliente pode fazer ligações e pagar por minuto para a senhora que toma conta, ou as muitas barracas de especiarias da Índia, onde pude entender que a gosma vermelha é uma espécie de folha recheada de condimentos ricos em cafeína. Os homens mastigam o mix até soltar um caldo, e depois de forma “educada”, cospem em qualquer lugar. Os efeitos da recente abertura do país ao comércio internacional é notável pelo transito caótico, carros e ônibus caindo aos pedaços e outros modelos do ano dividiam o trânsito com motos sem espelho e bicicletas–taxi.

Essa primeira impressão foi vivenciada durante uma caminhada de 20 minutos em direção à embaixada da Índia, onde tivemos a notícia que teríamos que aguardar 5 dias úteis para receber o visto, ou seja, Yangon seria nossa casa por 7 dias! Meu Deus…

Yangon é a antiga capital de Myanmar, um país que parou no tempo. O motivo desta estagnação se deu por conta dos longos anos de ditadura que o país enfrentou, o país está aberto ao turismo desde de 2011 e ainda não sofreu as influências de fora, a população mantém seus hábitos, suas crenças e segue uma vida normal.

Entre construções antigas e ruas movimentadas, surgia uma das melhores partes deste pais: o seu povo! Mulheres e crianças com a cara ornamentada com protetor solar feito de folhas, observavam com um olhar curioso e detalhista nossas roupas e nosso caminhar e quando abríamos um sorriso e as cumprimentavam, as reações eram espetaculares, alguns sorriam outros se escondiam, outros caiam na gargalhada enquanto outros simplesmente ficavam estáticos nos olhando. Começava ali um estranha situação, estar em um lugar onde você é a atração turística.

Estranhamentos à parte aprendemos a conviver e usar tudo a nosso favor. Nessas trocas de olhares, recebemos um grande presente, Sura Tura, um estudante em formação para guia turístico, fluente em Inglês, algo raro no país e fluente no Espanhol, algo quase impossível para Myanmar. Embora se diga que “quando a esmola é grande o santo desconfia”, só fomos surpreendidos por coisas boas. Um cara simpático, que deu uma aula de generosidade, e o melhor, mudou a nossa passagem por lá. Entendemos após uma longa conversa que ele tinha vivido como monge budista durante 10 anos e a pouco mais de 2 tinha abandonado esta vida para juntar dinheiro para enviar para a mãe. Não sabíamos mais este ser humano iria nos proporcionar a experiência mais rica das nossas vidas.

Resumidamente ele nos levou para os principais locais budistas, nos deu uma pós graduação sobre o budismo, a vida “secreta”dos monges e toda a história do Iluminado Buda. Explicou e falou sobre o nosso animal correspondente segundo a astrologia deles, e nos ensinou alguns rituais. Famintos de conhecimento, disparamos uma centena de perguntas, e calmamente nos respondeu uma a uma, após quase 5 horas e vencidos pela fome, convidamos ele para jantar e ele nos sugeriu um restaurante de comida típica de Myanmar, no meio do percurso a pé não aguentei e perguntei:

Quanto custa normalmente o seu serviço?
– Não ofereci minha companhia por dinheiro, será um prazer para mim acompanhar vocês.

Espantado e encantado, respirei fundo e segui, chegamos no local e pedimos uma cerveja, e entre um gole e outro, a aula de generosidade continuava. Ele contou que ainda morava no monastério, mas que estava muito feliz pois tinha arrumado um trabalho que pagava 100 dólares por mês, dinheiro suficiente para terminar os estudos, se alimentar e iniciar o sonho de ser um guia turístico e juntar dinheiro para ajudar a mãe, mas não falava disso com sofrimento, não falava disso como obrigação, falava de forma simples e alegre. Naquela hora olhei pra minha vida e  muitos questionamentos sobre generosidade, desapego e simplicidade se abriram. Vi que minha caminhada é muito longa para conquistar tantas qualidades!

Ao final da refeição regada de perguntas, gargalhadas e confissões, chegou a conta e veio mais um convite para nos acompanhar no tour que faríamos, sem exitar marcamos para as 16 horas do dia seguinte.

Despedimos e tomamos um táxi e uma conversa sobre sincronicidade, merecimento e desconfiança começou.

Por que está pessoa apareceu na nossa vida?
Por que tanta generosidade e disponibilidade?
Um guia que fala espanhol e inglês e conhece tudo sobre o que viemos buscar, meditação e budismo, por que hein?
Essas respostas vamos compartilhar nos próximos textos!

Gratidão a Myanmar, um pais onde a pobreza financeira e a nobreza de espírito se completam.

Leia outros textos sobre nossas aventuras pelo mundo AQUI!

Author Rodrigo Borges

Ócio Criador do Folga na Direção. Criativo por natureza, músico por vocação, ator por educação e empreendedor por diversas razões. Formado em Marketing e Agronegócio.

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Join the discussion 2 Comments

  • Margareth disse:

    É Rodrigo, nós temos muito que nos desapegar,mais não podemos desistir,porque sabemos que esse é o verdadeiro caminho para alcançar a nossa tão almejada PAZ DE ESPIRITO….um grande bj para vocês.

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